Cultivando o Corpo

Por Bill Smith

As promessas de Ano Novo para emagrecer são praticamente um ritual nos Estados Unidos. Por volta do início do ano, as pessoas resolvem entrar em forma. Algumas se sentem culpadas pela “polícia da obesidade” do país (cujos padrões, muitas vezes, são irrealistas e adotam abordagens padronizadas). Outras estão com as roupas pequenas demais, e outras ainda enfrentam problemas de saúde legítimos devido ao excesso de gordura corporal. (Doenças cardíacas, diabetes, colesterol alto, pressão alta e outras, embora possam ser hereditárias, muitas vezes são resultado de hábitos alimentares inadequados e falta de exercícios físicos regulares.)

Nossos empresários astutos estão prontos para lucrar com as resoluções. Academias e clubes de saúde incentivarão os determinados oferecendo promoções especiais. E os americanos aproveitarão a oferta. De 2000 a 2014, a receita das academias aumentou de 11,6 bilhões de dólares para 24,6 bilhões de dólares. É claro que, para ir à academia, é preciso ter uma boa aparência, então compramos roupas esportivas na ordem de 30 milhões de dólares por ano.

Embora em muitas regiões do nosso país a obsessão por saúde e boa forma seja vista como algo perverso, identificamos coletivamente um problema real: nossos corpos precisam de cuidados constantes. Com o avanço da tecnologia ao longo dos últimos dois séculos, passamos de uma sociedade predominantemente baseada no trabalho manual para uma sociedade em que máquinas realizam o trabalho físico pesado por nós. Ainda trabalhamos duro, mas o trabalho tende a ser mais intelectual e a envolver o controle das máquinas.

Pessoas como meu avô ficaram felizes em ver esse dia chegar. Quando eu era menino, ele se recusou a me ensinar certas habilidades (para o bem ou para o mal) porque não queria me ver trabalhando tanto quanto ele. Ele queria uma carga de trabalho fisicamente mais leve para mim. Isso aconteceu, não só comigo, mas com a grande maioria da nossa sociedade. Somos mais sedentários no trabalho do que as gerações anteriores. Sentamos em cadeiras atrás de mesas ou, se somos mais preocupados com a saúde física, usamos mesas de altura ajustável. Mesmo assim, a quantidade de atividade física relacionada às nossas profissões diminuiu exponencialmente. Toda essa tecnologia que proporcionou mais descanso físico resultou em uma nova série de problemas que exigem ajustes no estilo de vida.

Nossos corpos foram feitos para o esforço físico; foram feitos para enfrentar resistência, superá-la e se fortalecer durante todo o processo.

Quando não enfrentamos essa resistência, nossos corpos entram em decadência, atrofiando-se e adoecendo. Deus nos deu o alimento para alimentar esse processo. O pão fortalece o coração do homem (Salmo 104:15). O mel dá energia ao cansado (1 Samuel 14:25). Nossos corpos precisam do combustível adequado para o trabalho que enfrentamos. Isso, é claro, varia de pessoa para pessoa, dependendo do seu nível de atividade física. Quando o esforço físico é negligenciado e nossa alimentação é desproporcional à nossa atividade, o combustível se torna um veneno para o nosso corpo; pode ser um veneno de ação lenta, mas ainda assim é um veneno.

Para quem observa de fora, há esse sujeito (cristão reformado?) que acha toda essa ênfase em exercícios e dieta uma bobagem. Ele entende que tem liberdade em Cristo, que todos esses alimentos ricos são dádivas de Deus e que ele pode desfrutar deles com gratidão. E como desfruta! Em nossa sociedade relativamente rica, ele come e bebe melhor do que muitos reis da antiguidade. Ele come e bebe o que quer, quando quer e na quantidade que quer. Se alguém lhe disser que ele precisa ter mais cuidado e cuidar melhor do seu corpo, ele pode até retrucar, na defensiva, que o que a pessoa está defendendo é uma “doutrina de demônios” (1 Timóteo 4:1ss). Mas será mesmo?

Existe alguma justificativa bíblica para cuidar do corpo por meio da alimentação e do exercício?
Eu acredito que sim.

Comecei a entender essa lógica quando estava perto dos trinta. (Tenho quarenta e sete anos enquanto escrevo isto.) Eu pesava cerca de cento e vinte quilos em um corpo de um metro e oitenta e cinco. Usava calças tamanho 107cm de cintura (tamanho 54 no Brasil) E eu era muito feliz (e até parecia). Eu era o tipo de pessoa que dizia: “Bem, todos vamos morrer de qualquer jeito. Então, que eu morra comendo o que eu quiser!”

Mas então comecei a ensinar os Dez Mandamentos à minha congregação. Enquanto lia a exposição de Thomas Watson sobre o Sexto Mandamento em seu livro The Ten Commandments, fui confrontado com meu lento suicídio.

“Muitos cavam a própria sepultura com os dentes”.

-Thomas Watson, The Ten Commandments.

Naquele momento, percebi que cultivar a saúde física era um mandamento de Deus. Eu não compreendia totalmente a lógica por trás do mandamento, mas sabia que precisava fazer algo a respeito da minha falta de autocontrole e dos consequentes problemas de saúde. Também sabia que seria um desafio ensinar minha congregação sobre autocontrole enquanto eu estivesse com a aparência de Eglom, rei de Moabe.

Comecei a praticar exercícios moderados (cerca de trinta minutos de exercícios aeróbicos pela manhã) e mudei minha alimentação significativamente. Perdi entre 25 e 30 quilos ao longo do ano. Nos últimos dezoito anos, houve altos e baixos e as rotinas de exercícios mudaram, mas experimentei os benefícios de cultivar uma vida mais saudável.

Ao longo desses anos, pude refletir um pouco mais sobre a lógica bíblica por trás da prática de hábitos saudáveis. Cuidar e desenvolver nossos corpos está enraizado na natureza da nossa criação. Deus criou o homem do pó da terra e ordenou que ele fosse fecundo, se multiplicasse, enchesse a terra e a sujeitasse.

Cuidar e desenvolver nossos corpos está enraizado na natureza da nossa criação.

As imagens agrícolas utilizadas não são metáforas superficiais. Existe uma correspondência entre o homem e a terra. Os homens plantam sementes nas mulheres e os frutos nascem do útero. Somos terra viva, ambulante e respirante. Nossos corpos são jardins que precisam ser cultivados de muitas maneiras. Aprendemos sobre nós mesmos observando como a terra é glorificada. Uma lição que aprendemos é que nossos corpos precisam de atenção para serem frutíferos e saudáveis.

Nossos corpos precisam ser cultivados e nutridos, combatendo espinhos e cardos, para que frutos bons e saudáveis ​​possam ser produzidos.

Cultivamos nossos corpos “arando-os” com atividade física e “fertilizando-os” com uma alimentação adequada. O primeiro pedaço de terra que Deus nos confiou como mordomia é o Seu pequeno jardim, que é o nosso corpo. É o corpo Dele, e cuidar dele adequadamente faz parte do nosso mandato de domínio. Devemos aprender a submeter nossos próprios corpos. Ao fazermos isso, estaremos mais aptos a cumprir os outros aspectos do nosso mandato de domínio¹.

Os benefícios diários de uma boa rotina de exercícios e uma alimentação saudável são bem conhecidos. O treinamento de resistência ou força (exercício anaeróbico) e o treinamento de resistência aeróbica (exercício aeróbico) têm efeitos positivos em muitas áreas da sua vida. Combinados com uma alimentação consistentemente equilibrada, eles não só ajudam a controlar a pressão arterial e o colesterol ruim, como também melhoram o seu humor. Uma boa atividade física reduz o estresse.

Um professor universitário e pastor me disse certa vez: “Bill, você tem uma certa quantidade de energia que precisa gastar fisicamente. Se você não a gastar, ela vai te consumir.” Ele estava certo. Um estilo de vida equilibrado, com exercícios, alimentação adequada e descanso, ajuda a reduzir o estresse, aumenta a energia geral, estimula hormônios que podem auxiliar no tratamento da depressão, fortalece o sistema imunológico e ajuda a prevenir doenças cardíacas.

Nada disso deveria ser uma surpresa para nós, que temos uma visão bíblica do corpo. Deus nos criou para lutarmos contra a terra e torná-la fértil. Ele prometeu que veríamos frutos. Os benefícios para a saúde, em geral, fazem parte desses frutos.

Nada disso significa que seja uma panaceia que nos tornará imortais. Nossos corpos ainda estão sujeitos à morte. Haverá espinhos e cardos. E somos lembrados em cada funeral e Quarta-feira de Cinzas de que somos pó e ao pó retornaremos. Esta é a realidade até a ressurreição dos mortos.

Dieta e exercícios não têm vida em si mesmos e, portanto, nunca devem se tornar ídolos. Estamos lidando com corpos moribundos e em decomposição. Mesmo assim, Deus nos incumbiu de lutar contra os espinhos e cardos e desfrutar do fruto do nosso trabalho.

Fazemos isso quando lutamos contra doenças; cada vez que tomamos um remédio ou o administramos a alguém, estamos lutando contra a terra. Fazemos isso porque o corpo importa.

Cuidar da sua saúde e mantê-la não é um ato egoísta. Na verdade, é uma forma de servir aos outros. Ao cuidar da sua saúde, por exemplo, você consegue lidar melhor com o estresse. Sua disposição para com os outros tende a ser mais agradável. Melhorar a sua saúde também contribui para o seu nível de energia, permitindo que você trabalhe com mais eficiência e realize mais em menos tempo. Além disso, ao fazer o que pode para melhorar e manter a sua saúde, você está agindo para não se tornar um fardo para os outros como resultado de excessos cometidos ao longo dos anos.

Portanto, amados irmãos, travem a batalha contra o excesso de peso, cultivando seus corpos para a glória de Deus. Apresentem seus corpos a Ele como um jardim bem cuidado.

Bill Smith é pastor da Cornerstone Reformed Church in Carbondale, Ilinóis.

Texto Original: Cultivating the Body

Michael Vieira

Michael Vieira

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