
por Adam McIntosh
É verdade. Não há nenhum versículo no Novo Testamento que ordene ou registre um batismo infantil. Isso apresenta um problema para alguns cristãos. Aqueles que buscam apenas por mandamentos explícitos, ou aqueles cuja teologia se limita ao Novo Testamento, vão chegar à conclusão de que o batismo infantil não é bíblico e, portanto, não é cristão.
Quando proponentes do batismo infantil (i.e. pedobatistas) defendem sua posição, a qual evidência bíblica eles mais recorrem? A circuncisão. Eles dizem que o batismo “substitui a circuncisão”, ou que o batismo é a “nova circuncisão”, ou que a circuncisão tem sido “cumprida no batismo”. Esta é uma linha de pensamento comum nos meios protestantes, católicos romanos e ortodoxos. Pode ser encontrada em Cipriano de Cartago, Agostinho de Hipona, na Confissão Belga, no Catecismo de Heidelberg e além.
Enquanto pedobatista, concordo que existam similaridades entre a circuncisão e o batismo, mas o argumento comum é demasiadamente simplista. A força da circuncisão é a revelação de que Deus não se opõe a impor rituais sobre bebês e crianças pequenas. Esse é um ponto importante, mas se Deus quer ou não que os infantes sejam batizados é uma questão completamente diferente.
Aqueles que se opõem ao batismo infantil (i.e. credobatistas) acertadamente apontam para diferenças entre a circuncisão e o batismo, como: (1) a circuncisão era apenas para os israelitas, não para todos os crentes em Yahweh, e (2) a circuncisão era destinada aos israelitas homens, não às mulheres israelitas. Eu concordo com os credobatistas que a circuncisão não é prova o suficiente do batismo infantil. Há um argumento muito melhor a ser apresentado.
A prova suficiente para o batismo infantil é o batismo no Antigo Testamento. Se haviam batismos na antiga aliança, e se estes incluíssem os infantes, deveríamos esperar que a inclusão dos infantes continuasse na nova aliança. Não precisaríamos de um mandamento explícito no Novo Testamento que nos ordenasse a batizar nossos filhos. O batismo infantil seria esperado e a conclusão padrão. Na verdade, o Novo Testamento teria que, explicitamente, proibir o batismo de infantes, no caso de mudança.
Muitos cristãos partem do pressuposto de que o batismo é exclusivo do Novo Testamento, como se tivesse sido iniciado por João Batista no primeiro século. Mas os apóstolos refutam essa ideia em suas cartas. Pedro diz que o dilúvio foi um “batismo” (baptisma) para Noé e sua família (1 Pedro 3.20,21). Paulo diz que os israelitas foram “batizados” (baptizo) na travessia do Mar Vermelho (1 Coríntios 10.2). Hebreus 9.10 usa baptismos para se referir às limpezas cerimoniais da antiga aliança. Isso significa que o batismo existia no Antigo Testamento. É aqui onde nossa teologia do batismo deve começar. Dizer o contrário é interpretar as Escrituras de maneira contrária à dos apóstolos.
A teologia do batismo da Bíblia começa em Gênesis 1, com um mundo de água do qual tudo mais será criado e estruturado. No Segundo Dia, Deus separou a água em dois corpos, com águas acima e águas abaixo. Isso se tornará um paradigma simbólico para o batismo. No dilúvio, Noé e os seus foram batizados pela água de cima (a chuva). Os ímpios foram submersos. No Mar Vermelho, os israelitas foram batizados pela água de cima (Salmo 77.16-20). Os egípcios, ímpios, foram submersos. Submersões representam a morte e o juízo, enquanto a aspersão e o derramamento representam purificação pelos céus.
As limpezas sacerdotais do sistema levítico seguiram o mesmo padrão. Números 8.6,7 explicitamente demanda “aspersão” para a ordenação de levitas. Outras passagens usam a palavra para “limpeza”, mas essas limpezas eram do lavatório de bronze às portas do tabernáculo (Êxodo 29.4, 30.18). Êxodo 38.8 nos diz que o lavatório fora feito de espelhos, portanto não era apropriado para submergir adultos em água. O consenso histórico (tanto de judeus como de cristãos) é o de que a água era retirada do lavatório e aplicada sobre o destinatário. Êxodo 30.20,21 diz que os sacerdotes deveriam lavar as mãos e os pés todas as vezes em que entrassem e saíssem do tabernáculo. Eles deveriam fazê-lo com a água “do” lavatório, indicando ainda que a água era retirada e aplicada de cima.
As limpezas de impurezas eram executadas de maneira semelhante. Considere a especificidade de Números 19.13 – “Qualquer que toque o corpo de alguém que tenha morrido e não se purificar… ele será impuro, porque a água da purificação não foi aspergida sobre ele.” Aspergir ou derramar são indicados em outras passagens (Isaías 44.3, 52.15, Ezequiel 36.25). Uma vez que Hebreus 9 se refere a todos esses casos como “batismos”, devemos aceitar que aspergir e derramar são modos legítimos (e preferíveis) de administração do batismo.
O que isso tem a ver com o batismo infantil? Primeiro, vemos que o batismo precede a circuncisão. O batismo de Noé (Gn 7) aconteceu bem antes da circuncisão de Abraão (Gn 17). Não é apropriado falar sobre o batismo substituindo a circuncisão quando o primeiro existia antes e simultaneamente à circuncisão por milhares de anos. Eram dois rituais distintos para propósitos distintos. Seria melhor dizer que a circuncisão simplesmente deixou de existir. A circuncisão foi cumprida na crucificação de Cristo, assim como todos os outros rituais sangrentos. Em contraste, o batismo continua porque precede a Lei e remonta à Criação.
Segundo, vemos que os batismos de infantes foram aprovados por Deus no Antigo Testamento. O batismo do Mar Vermelho incluiu crianças. Foi para todo o povo da aliança de Deus, não apenas os adultos. Incluiu crianças israelitas, até aquelas jovens demais para entenderem o que estava acontecendo. Da mesma forma, as limpezas para as impurezas incluíram crianças. Números 19 é o melhor exemplo disso. Qualquer que estivesse na tenda de um cadáver era considerado impuro e deveria ser aspergido com água, sem exceções (Números 19.14,18). Incluía qualquer um, de qualquer idade, no leito de morte de alguém amado. Além disso, se uma criança se tornasse impura por qualquer outro modo, os requisitos para o batismo seriam aplicáveis. A inconsciência do infante quanto à sua impureza, e sua falta de capacidade de confessar, não impediam o batismo.
Essa informação deveria mudar radicalmente como abordamos o Novo Testamento. Em Mateus 3, o batismo surge do nada. É mencionado sem qualquer descrição sobre como este deveria ser administrado. Por quê? Porque era um ritual conhecido por toda a história de Israel. Os autores esperavam que sua audiência soubesse o que era o batismo e esperam que saibamos também. O batismo sempre foi um ritual de aspersão ou derramamento, e sempre incluiu adultos e crianças. Não há indicação de que esses detalhes tenham mudado na nova aliança.
Pais teriam levado seus filhos para serem batizadas por João. Eles pisaram nas águas abaixo e foram batizados com as águas acima, recreando a imagem do Segundo Dia. Jesus foi batizado da mesma forma. No Pentecostes, o batismo do Espírito Santo foi um “derramamento” (Atos 1.5, 2.17). Pedro então ordenou o batismo por água e disse que a promessa era “para vocês, seus filhos, e para todos os que estão longe” (Atos 2.38,39). A mente judia teria entendido isso como nada mais do que o batismo infantil por aspersão ou derramamento.
A circuncisão não é o argumento mais forte para o pedobatismo. Na maior parte das vezes, é uma distração que leva à confusão desnecessária. A defesa mais eficaz do batismo infantil é o batismo infantil. Deus o ordenou na velha aliança e ele continua na nova aliança. Prestem atenção, pais. Quando o exército de Faraó se aproxima, não deixem seus filhos na margem. Vocês os levam com vocês através das águas.
Adam McIntosh é o pastor da Saint David’s Church em Tomball, Texas. Tradução do Samuel.

