A nova sinagoga

Por Douglas Wilson. Tradução Joffre Swait.

Atos dos Apóstolos, capítulo 13

Introdução

É bem verdade que alguns consideram o tema do governo da igreja entediante. Mas posso garantir que, se você errar certos princípios de governo eclesial, isso o levará a alguns dos momentos mais emocionantes da sua vida. Refiro-me, é claro, à abordagem em estilo Thunderdome para as reuniões congregacionais.

O Texto

No dia seguinte, assentou-se Moisés para julgar o povo; e o povo estava em pé diante de Moisés desde a manhã até ao pôr do sol. Vendo, pois, o sogro de Moisés tudo o que ele fazia ao povo, disse: Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até ao pôr do sol? […] (Êx. 18:13-27).

Resumo do Texto

Neste texto encontramos a grande sabedoria de Jetro, sogro de Moisés. Moisés estava totalmente ocupado com o povo e talvez um pouco exausto (v. 13). Quando Jetro viu isso, perguntou: “O que é isto?” (v. 14). Moisés respondeu que ele era o juiz que aplicava a lei ao povo (vv. 15-16). Jetro replicou que isso não era bom e que, se Moisés continuasse assim, não só se esgotaria, mas também esgotaria ao povo (vv. 17-18). O conselho de Jetro foi que Moisés representasse o povo perante Deus e também ensinasse o povo (vv. 19-20). Além disso, ele deveria delegar a tarefa de governar por meio de julgamento a homens justos, de integridade, cada um designado para um de vários níveis (v. 21). Eles julgariam os assuntos rotineiros, e as situações realmente complexas seriam levadas a Moisés (v. 22). Jetro disse que, se Deus permitisse isso, tanto Moisés quanto o povo seriam poupados (v. 23). Moisés concordou (v. 24) e nomeou líderes sobre dezenas, cinquenta, centenas e milhares (v. 25). Eles julgavam o povo, mas os casos difíceis vinham a Moisés (v. 26). E Jetro partiu (v. 27).

Contexto

Ao abordar todo este assunto, quero começar declarando abertamente certas suposições que devemos ter. Se iniciarmos a discussão sem realmente compartilhar essas suposições, conseguiremos ter um debate vigoroso, embora confuso, mas é improvável que cheguemos a algum lugar.

A primeira suposição é que o Novo Testamento não inventa o ofício de presbítero. Quando presbíteros são estabelecidos nas igrejas cristãs recém-plantadas (Atos 14:23), isso não era algo novo. O povo de Deus já era governado por presbíteros por milênios. Isso significa que devemos construir nossa eclesiologia a partir de fundamentos do Antigo Testamento, e não do zero no Novo Testamento. Para nós, cristãos americanos modernos, esta é uma suposição especialmente importante a ser abordada.

Em segundo lugar, não devemos procurar uma autenticação de direito divino para cada detalhe de qualquer forma de governo eclesial. Deus estabeleceu a sinagoga (e, portanto, a igreja) por meio de um processo de desenvolvimento histórico. Deus exigiu culto semanal dos judeus (Lv. 23:3), mas não lhes deu absolutamente nenhuma direção litúrgica na lei sobre como esse culto semanal deveria ser conduzido. O culto no Templo era estritamente definido, assim como os sacrifícios, mas não o culto na sinagoga. Isso não anula o princípio regulador do culto, que é que o culto deve ser de acordo com as Escrituras, mas exclui as formas mais estritas da abordagem reguladora. Para ser de acordo com as Escrituras, deve haver uma modesta margem de manobra… porque um culto cristão é um culto de sinagoga, com certos elementos do Templo incorporados.

E, por último, precisamos lembrar a distinção entre princípios e métodos. Há uma diferença entre estas duas perguntas, por exemplo: “Esta forma de governo eclesial é representativa e descentralizada?” e “Onde a Bíblia exige um mandato de dois anos para um presbítero?” Na forma presbiteriana de governo eclesial, buscamos implementar todos os princípios relevantes, o que não é a mesma coisa que ter um texto de prova exigindo que atas sejam registradas nas reuniões de presbíteros, ou que usem as Regras Parlamentares de Robert.

Sinagogas na Época de Jesus

Mesmo um olhar superficial para o Novo Testamento mostra Jesus e os apóstolos participando plenamente do culto nas sinagogas enquanto pregavam a chegada do reino. Além disso, a conexão era tão próxima que as igrejas cristãs são até chamadas de sinagogas (Tg. 2:2; 5:14). Devemos parar antes de uma identificação absoluta, mas reconhecer que estamos lidando com mais do que apenas uma analogia. Agora, como eram governadas essas sinagogas do primeiro século?

O oficial mais baixo era o chazzan (Lc. 4:20). A palavra grega aqui é huperetes. Ele era frequentemente o mestre-escola das escolas pactuais conectadas à sinagoga. Depois havia o sinédrio local, a sessão local de presbíteros (zeqenim), ou líderes (archontes). O principal entre eles era o líder da sinagoga (archisynagogos), um oficial mencionado frequentemente no Novo Testamento.

Na sinagoga de Roma, e provavelmente na diáspora ocidental, havia alguns outros aspectos interessantes. Um era que alguns líderes parecem ter sido escolhidos por um período especificado, e outros vitalícios. Também havia um presbiterado aparentemente não ordenado chamado gerousia, que provavelmente era responsável por assuntos externos, homens que agiam de modo semelhante aos curadores da era moderna.

Uma Questão Etimológica

Uma das coisas que devemos ter cuidado ao fazer nisso é distinguir entre o significado básico de uma palavra e o ofício em si. Há várias palavras que denotam idade, sabedoria e experiência que então se tornaram nomes para um ofício particular (cujo detentor pode ou não ter idade, sabedoria ou experiência). Palavras nessa categoria seriam ancião, senador, sênior ou senescal. Um homem de vinte e oito anos pode ser eleito senador, e se o apóstolo Paulo era membro do sinédrio nacional (Atos 26:10), ele quase certamente estava abaixo da idade mínima (provável) de trinta anos (Gl. 1:14). A maioria dos presbíteros geralmente será (e deve ser) mais velha, mas você não precisa ser velho para ser presbítero. Timóteo entrou no ministério como um homem muito jovem. Sabemos disso porque, décadas depois de Paulo o ter escolhido, ele instrui Timóteo a não deixar que ninguém desprezasse sua juventude (1 Tm. 4:12), e que ele precisava fugir das paixões juvenis (2 Tm. 2:22).

O Governo de Israel

O governo eclesial presbiteriano é simplesmente uma aplicação cristã desse tipo de ordem representativa descentralizada e, ainda assim, ascendente. Na CREC, temos no Concílio o governo sobre milhares, no presbitério o governo de menos milhares, e na sessão local o governo de centenas. Presbíteros paroquiais poderiam ser considerados como tendo governo sobre cinquenta e dezenas, dependendo da igreja e/ou paróquia.

A Pergunta a Fazer

Embora as circunstâncias sejam diferentes, precisamos aprender a dizer: “pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (Atos 15:28). Na questão do governo eclesial, as Escrituras nos designam um lugar para ficar, bem como espaço para nos mover. Ao nos “movermos”, não devemos fazê-lo de maneira contrária a nada exigido pelas Escrituras, e só nos mover dentro dos parâmetros que nos são designados pelas Escrituras. Deve ser de acordo com as Escrituras.

Muitas vezes pedimos o mandado escriturístico para a proposta de Jetro (já que ainda não foi implementada), mas não exigimos mandado para o que Moisés estava fazendo antes de Jetro chegar. Uma das coisas que queremos fazer é examinar tudo o que estamos fazendo à luz das Escrituras.

E tudo isso está sob Cristo.

Pregado na igreja Pilgrim Hill, Nashville, Tennessee, 2025

Joffre Swait

Joffre Swait

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