Por que somos chamados “cristãos”

Chamados pelo Seu Nome

por Jeremiah Jasso

INTRODUÇÃO

Como responderias a alguém que pergunta: “Então por que vocês, que vivem batendo nas suas Bíblia, são chamados de ‘cristãos’ mesmo?” Há duas respostas comuns. A primeira, e a mais frequente, é algo como: “Fomos chamados de ‘cristãos’ de forma pejorativa pelos pagãos do mundo antigo, e nós abraçamos este nome!” A segunda aproxima-se de: “Foi Deus quem nos chamou de ‘cristãos’, e assim somos!”

Seja qual for a resposta que te incline, ambas dependem da interpretação de um único versículo: Atos 11:26 — “E, por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos.” Observando de perto, Lucas não diz expressamente quem deu esse nome aos discípulos. Só há duas possibilidades: ou foram os pagãos, ou foi Deus. Nas páginas seguintes, defenderei que foi Deus quem nomeou a sua nova criação, e não os pagãos. Primeiro, prepararei o terreno com alguns argumentos de fundo e depois examinarei o próprio Atos 11:26.

O NOMEAR COMO DOMÍNIO

Criação, nomeação e exercício de domínio estão indissoluvelmente ligados. Não é por acaso que, logo após criar Adão e lhe dar a tarefa de subjugar e dominar, Deus trouxe todos os animais a Adão para que os nomeasse. O primeiro ato de domínio de Adão foi dar nomes às criaturas postas sob a sua autoridade. Receber o privilégio de nomear é participar da própria criação. Por isso a palavra de Paulo em Efésios 3:15 é tão provocativa: “…do qual toma toda família, tanto no céu como na terra, o seu nome.” Letham comenta: “Ele é o criador e Senhor de todos os grupos familiares. Esses grupos recebem nomes. No mundo antigo, nomear denotava soberania; aqui está em vista a autoridade soberana do Pai sobre todos os povos.”

Esse padrão — criação, domínio e nomeação — repete-se quando Deus muda o nome de Abrão para Abraão. Calvino observa com precisão que a aliança com Abraão foi uma nova criação: “Logo que foi dito: ‘Serei o teu Deus e o de tua descendência depois de ti’, a Igreja foi separada das demais nações; assim como, na criação do mundo, a luz surgiu das trevas.” Em seguida, é prometido a Abraão o domínio sobre o mundo inteiro pelo evangelho (Romanos 4:13), e seu nome é mudado conforme a sua nova natureza — pai de multidões.

O mesmo ocorre com a mudança de Jacó para Israel e continua a manifestar-se a cada nascimento de uma criança. Seguimos o exemplo do nosso Pai ao dar nomes aos nossos filhos, participando da criação de almas imortais. Nenhum bom pai entregaria a certidão de nascimento aos inimigos. Certamente o nosso Deus não abdicaria de nomear a sua nova criação.

A IMPOSSIBILIDADE DA ALTERNATIVA

Quando a romana Víbia Perpétua aguardava a execução por ser cristã, no início do século III, seu pai tentou persuadi-la a renegar a fé. Ela apontou para um jarro de água e perguntou: “Pode ele ser chamado por outro nome que não seja o que é?” O pai respondeu: “Não.” Ela concluiu: “Pois eu também não posso chamar-me de outra coisa senão o que sou — uma cristã.” Esse deve ser o sentimento de todos nós. Ser cristão é ser seguidor de Cristo, submeter-se ao Messias. Quem reconhece o senhorio de Jesus Cristo, qualquer que seja o nome que deseje receber, tornou-se cristão. Assim tinha de ser.

Como disse o apóstolo: “não há outro nome debaixo do céu, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4:12). Devemos considerar uma honra usar esse nome como povo da aliança, tal como Pedro: “Mas, se padece como cristão, não se envergonhe; antes, glorifique a Deus nesse nome” (1 Pedro 4:16). Unidos misticamente ao Salvador, a nossa nova natureza não conhece outro nome senão o de Cristo. O nome “cristão” é perfeitamente adequado. Seria surpreendente que o mundo desse um nome tão apropriado — na verdade, o mundo não tem capacidade para isso. O privilégio e a capacidade de nomear pertencem ao segundo Adão, por quem e para quem somos chamados cristãos.

Houve pelo menos uma alternativa tentada: o termo “galileu”. Era mais um insulto do que um nome. Os judeus frequentemente destacavam que Jesus e seus seguidores eram galileus, tentando rotular o ensino deles como filosofia de gente simples. Esse nome, embora favorecesse os inimigos da Igreja, não pegou. Prevaleceu o nome que beneficiava o partido dos apóstolos. Albert Barnes observa que no nome “cristão” “não havia nada de desonroso. Ser amigo declarado do Messias ou do Cristo não era, para os judeus, motivo de reprovação, pois todos professavam ser amigos do Messias. O motivo de reprovação contra os discípulos era considerarem Jesus de Nazaré o Messias; por isso, quando seus inimigos queriam falar deles com desprezo, chamavam-nos de galileus.” Dado que o nome “cristão” era glória para a Igreja e prejuízo para seus inimigos, é improvável que tenha sido inventado justamente pelos inimigos que buscavam destruí-la.

ATOS 11:26

“E, tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia. E, por todo um ano, se reuniram naquela igreja e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos.” Como já dito na introdução, o texto não diz expressamente quem deu o nome. Até então a igreja era majoritariamente judaica, mas pela primeira vez reunia-se uma grande multidão de judeus e gentios. Como chamá-los? Fazia-se necessário um nome novo. Muitos comentadores destacam que Antioquia era famosa por criar apelidos zombeteiros e concluem, com grande certeza, que foram os antioquenos que nomearam. Mas, diante da utilidade do nome, é improvável que os antioquenos tenham dado à Igreja tamanha vantagem. Eram conhecidos por nomes difamatórios, não por nomes precisos e úteis. Contudo, o fato de Antioquia ser famosa por dar nomes e ser um polo econômico não é irrelevente. Antioquia era o lugar onde as pessoas iam “fazer nome”, como hoje Los Angeles ou Nova York. Com tanto sucesso, parece que a cidade se achava no direito de distribuir nomes. Quando Deus nomeia a sua Igreja em Antioquia, é como se estivesse usurpando essa pretensa autoridade, nomeando o seu povo na própria cidade que dava nomes. Antioquia foi deslocada pela Nova Jerusalém; hoje é mais lembrada pelos sermões de Crisóstomo do que por sua glória antiga.

Outro fator que diminui a probabilidade de origem humana é o uso do verbo grego particular χρηματίζω (chrēmatizō). É esse o termo traduzido por “chamados” e, no Novo Testamento, é usado de modo característico para designar um chamado divino. Por isso Barnes especula que talvez tenham sido Paulo e Barnabé os responsáveis: “Não se pode negar que o significado mais comum [de chrēmatizō] no Novo Testamento é o de uma advertência ou comunicação divina; é certamente possível que o nome tenha sido dado por Barnabé e Saulo.” Se fosse de origem humana, esperar-se-ia o uso de καλέω (kaleō), como em Mateus 23:7 — “serem chamados (kaleō) pelos homens”. Assim, Matthew Poole afirma com segurança que foi “por autoridade divina, pois a palavra (chrēmatizō) não significa menos que isso.”

Não é segredo que estudos de palavras gregas já serviram de colchão para muitas camas de Procusto. O contexto mais amplo e o tema bíblico devem ser determinantes para que a Escritura revele o seu significado orgânico. Neste caso, para que o nome seja de origem divina, esperamos que o tema geral das Escrituras nos empurre nessa direção. Perguntemo-nos: os discípulos em Atos esperavam que Deus lhes desse um nome?

A resposta está na profecia de Isaías 62:2 — “As nações verão a tua justiça, e todos os reis, a tua glória; e serás chamada por um nome novo, que a boca do Senhor designará.” Eis uma profecia sobre a Nova Aliança: depois que os gentios forem trazidos ao pacto, Deus dará ao novo povo um nome novo. É exatamente o que vemos em Atos 11: a igreja explode, gentios são incorporados e recebem um nome novo. Quem estudasse a Palavra teria razões para esperar isso. Além disso, uma leitura direta de Isaías 62:2 elimina a possibilidade de origem humana, pois o nome virá “da boca do SENHOR”. Matthew Henry não hesita em conectar os pontos: “Assim se cumpriu a Escritura, pois estava escrito acerca da igreja do evangelho: tu serás chamada por um novo nome… e à igreja corrupta e degenerada dos judeus: O Senhor Deus vos matará e a seus servos chamará por outro nome (Is 62:2; 65:15).”

Embora “novo nome” signifique mais do que um simples título, certamente não significa menos. Temos aqui um nome dado, e com ele muitas implicações. Ser chamado “cristão” seria aterrorizante se não fosse pela imputação da sua justiça, pois nenhum de nós daria conta de tal nome. Mas, tal como é, podemos gloriar-nos de sermos chamados pelo seu nome. Temos o grande privilégio de repetir as últimas palavras do mártir e pai da Igreja Policarpo: “Eu sou cristão!”

(tradução por Joffre Swait)

Joffre Swait

Joffre Swait

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