Por Peter J. Leithart

Os protestantes sempre insistiram que os sacramentos não trazem benefício algum sem uma resposta de fé, mas isso parece minar o batismo infantil, já que os bebês não parecem ser capazes de exercer a fé. Lutero e Calvino conciliaram sua insistência na fé com o batismo infantil alegando que os bebês podem crer. Os batistas veem isso como o calcanhar de Aquiles da posição pedobatista, um exemplo de até onde os pedobatistas precisam ir para defender uma prática insustentável. Será a fé infantil um absurdo?
Como indiquei mais detalhadamente em minhas palestras sobre batismo na conferência de verão Horizontes Bíblicos de 1996, nossas dúvidas sobre os sacramentos frequentemente resultam de confusões a respeito de duas coisas: graça e símbolos. Ao longo de grande parte da história da igreja, houve uma tendência (e às vezes mais do que uma tendência) de conceber a graça como algum tipo de substância, energia ou poder impessoal que Deus concede ao homem. Os sacramentos, portanto, tornam-se, como dizem até mesmo muitos reformados, “canais” pelos quais a graça flui para os crentes. Esta é apenas uma imagem, mas as imagens têm o poder de moldar a teologia para o bem ou para o mal. Chamar os sacramentos de “canais” da graça reforçou a visão equivocada de que a graça é uma substância ou poder impessoal.
A graça, no entanto, é a atitude de favor de Deus para com os pecadores, manifestada em Sua abordagem pessoal para estabelecer comunhão, para firmar ou renovar uma aliança com o Seu povo.
Não há quatro coisas envolvidas nos sacramentos (Deus, graça, sacramento, nós), mas apenas três (o Deus gracioso, os sacramentos e nós). Os judeus se maravilharam com a confiança de Pedro e João e perceberam que ela era resultado do conhecimento pessoal e da comunhão com Jesus (Atos 4:13). Nossa transformação tem a mesma causa: somos renovados pelo encontro pessoal com o Senhor, que se tornou o Espírito vivificante.
E quanto aos símbolos: frequentemente, pensamos nos símbolos como um acréscimo à vida real, como aprimoramentos do “literal”. No entanto, na estrutura personalista esboçada acima, os símbolos têm uma função muito mais fundamental na vida humana. Os relacionamentos pessoais entre seres humanos existem, em circunstâncias normais, apenas por meio de signos e símbolos. Os símbolos comunicam e mediam informações e presença pessoal. Conhecemos outra pessoa conversando (usando signos linguísticos) e por meio de gestos (aperto de mão, beijo, abraço, expressões faciais, etc.). A única maneira de a paixão de um homem por uma mulher sair da imaginação e se transformar em um relacionamento amoroso real é o homem tornar seu amor “público” falando, escrevendo cartas de amor, enviando flores e assim por diante. Atos simbólicos como esses não representam um relacionamento que já existe; sem os símbolos, o relacionamento pessoal não existiria.
Da mesma forma, nosso relacionamento pessoal com Deus se dá por meio do uso mútuo de símbolos:
Deus nos fala em Sua palavra, que assume a forma de símbolos impressos em uma página ou sons audíveis que carregam significado.
Respondemos com palavras de oração e louvor. Deus nos “gesticula” por meio da água do batismo e ao preparar Sua mesa; respondemos aceitando Seu convite e participando da Sua festa. A história da teologia sacramental pode ser contada como uma dialética entre tratar os sacramentos como mágicos e tratá-los como “meros símbolos”. Uma perspectiva personalista permeia todo o debate: os símbolos têm poder, mas esse poder reside na capacidade de estabelecer e manter relacionamentos pessoais baseados em aliança.
(Apesar das diferenças reais entre a linguagem e outras ações simbólicas, existem semelhanças fundamentais: tanto a fala [ou a escrita] quanto os gestos são ações físicas; tanto a emissão de sons significativos quanto a realização de gestos significativos são simbólicas, pois os significados estão codificados ou “inerentes” às ações físicas. De fato, é difícil pensar em uma ação física humana na qual o significado não esteja inerente: um tapinha nas costas é diferente de matar uma mosca, mas matar uma mosca diz algo; falar é diferente de arrotar, mas, dependendo das circunstâncias, arrotar pode significar tanto “Gostei da refeição” quanto “Sou um porco sem modos”.
Gerar e usar símbolos é um processo humano inescapável, um aspecto do nosso ser, feito à imagem do Pai que eternamente gera a Sua Palavra, a Sua Imagem [João 1:1; Hebreus 1:1-3].)
Com esse contexto em mente, podemos retornar à questão da fé infantil. Aqui, “fé” é a resposta humana de confiança em Deus em um relacionamento pessoal. A questão da fé infantil não é: “Os bebês são capazes de receber esse impacto do poder divino?” A questão é: “Os bebês conseguem interagir com outras pessoas? Os bebês têm relacionamentos pessoais?” E a resposta para essa pergunta é obviamente sim. Os bebês aprendem rapidamente (mesmo no útero ) a responder à voz da mãe; os bebês manifestam rapidamente “confiança” em seus pais; os bebês distinguem rapidamente estranhos de membros da família. Se os bebês conseguem confiar e desconfiar de pessoas, por que não conseguem confiar em Deus? Por trás da negação da fé infantil está, aparentemente, a suposição de que Deus é menos acessível a um bebê do que a outros seres humanos. Mas isso está completamente errado; pois nenhum ser humano está mais próximo de Deus do que Ele. E está errado porque a presença de Deus é mediada por meio de Seu povo. Quando os pais dizem ao seu recém-nascido: “Jesus te ama e cuidará de você”, eles estão proferindo as promessas de Deus.
Além disso, os pais estabelecem relações com seus bebês por meio de símbolos. Conversamos com nossos bebês e demonstramos nosso amor por meio de gestos, abraços e beijos. Se não há nada de irracional ou absurdo em os humanos estabelecerem relações pessoais com bebês por meio de símbolos, não há nada de irracional em Deus fazer o mesmo. Assim como estabelecemos relações de amor e confiança com nossos bebês por meio de símbolos, Deus fala com os bebês e estabelece uma relação com eles por meio da “palavra visível” do batismo.
Portanto, a pergunta “Devemos batizar bebês?” está em consonância com a pergunta “Devemos falar com bebês?”. O batismo infantil não é mais nem menos estranho e milagroso do que falar com um recém-nascido. Na verdade, é exatamente isso que o batismo infantil representa: Deus falando através da água com uma criança recém-nascida.
Peter J. Leithart
Permitam-me aprofundar um pouco mais. Se a criança não consegue entender o que os pais estão dizendo, é racional que os pais falem com ela? Os pais batistas, assim como outros, falam com seus bebês e não esperam que a criança entenda ou responda por muitos meses. Eles não veem nada de irracional nisso. Eles falam com seus filhos, ou seja, usam símbolos, não porque acham que o bebê entende tudo o que está sendo dito ou porque esperam uma resposta imediata. Eles falam com seus filhos para que a criança aprenda a entender e a responder. Da mesma forma, batizamos bebês não porque eles possam entender completamente o que está acontecendo com eles, nem porque esperamos que passem por algum tipo de transformação moral imediata. Nós os batizamos e os lembramos constantemente do batismo e de suas implicações, para que cheguem à compreensão e à maturidade na fé.
A meu ver, um batista sociologicamente coerente deveria seguir a teoria de Picabo Street sobre a educação infantil. Picabo Street era a esquiadora olímpica americana cujos pais, segundo me lembro da história, eram tão modernos e liberais que não queriam “impor” uma identidade à filha, então permitiram que ela escolhesse o próprio nome, com resultados óbvios. Karl Barth, que protestou veementemente contra a “violência” de impor uma identidade cristã a uma criança por meio do batismo infantil, sem dúvida ficaria satisfeito. Na verdade, os Streets não eram tão liberais assim, pois, apesar de si mesmos, aparentemente ensinaram Picabo a falar inglês, em vez de lhe dar a liberdade de escolher um idioma ou inventar um por conta própria. Os pais batistas, até onde sei, também não são coerentes; eles impõem um idioma e um nome aos filhos, um idioma e um nome que não podem ser religiosamente neutros; eles, apesar de si mesmos, muitas vezes tratam os filhos como cristãos, ensinando-os a cantar “Jesus me ama” e a rezar o Pai Nosso. E se fizerem tudo isso, que razão restará para resistir à imposição do sinal da aliança?
Texto Original: Do Baptists Talk to their Babies?
Tradução: Michael Vieira

