Por: Peter J. Leithart

Imagem: Pierre Richier e Guillaume Chartier, Centro, Center and Historic Center, Rio de Janeiro, Brasil.
Os cristãos vão à igreja para comer e beber. Isso não é novidade. Desde o início até o final da Bíblia, através de uma complexa história de transformação litúrgica, há uma constante: o povo de Deus sempre adora à mesa.
No centro do santuário-jardim no Éden, havia árvores frutíferas, boas para alimento. Os sacrifícios de Abel, Noé e Abraão eram rituais de alimentos, churrascos sagrados. Um antigo adorador hebreu oferecia um animal, com farinha ou bolos, em um altar. Na Bíblia hebraica, o fogo sacrificial “consome” a carne (akal, “comer”; Levítico 9:24), Levítico chama as ofertas do tabernáculo de “pão de Deus” (Lev. 21: 6, 8), e Ezequiel diz que o altar no templo é a mesa de Yahweh (Ez. 44:16). A “oferta pacífica” era uma refeição compartilhada: a gordura era queimada como comida do Senhor, enquanto o restante do animal era dividido entre o adorador e o sacerdote. O propósito de erigir um santuário era ter um lugar onde Israel pudesse “comer, beber e se alegrar” perante o Senhor (Deut. 12: 15–19; 14:6).
Embora os primeiros cristãos logo tenham deixado de oferecer sacrifícios, a comida permaneceu central para a adoração. Jesus veio comendo e bebendo com prostitutas, publicanos e até mesmo fariseus, usando as refeições como ocasiões para curar e a etiqueta à mesa como lição prática para discípulos. Depois do Pentecostes, os discípulos continuaram a se reunir para ouvir o ensino apostólico, orar e partir o pão (Atos 2:42, 46). Paulo admite que os Coríntios “se reuniam” para compartilhar a Ceia do Senhor (1 Cor 11:33). Quando finalmente entrarmos na nova Jerusalém, desfrutaremos da eterna ceia das Bodas do Cordeiro. Em Cristo, somos conduzidos à um Éden melhorado, um melhor banquete em que o fruto amadureceu para se tornar vinho.
Adoração sem comida é inconcebível na Bíblia e tem sido inconcebível durante a maior parte da história cristã. Isso não mudou na Reforma. A maioria dos reformadores queria aumentar a participação e a frequência da comunhão. Foi só recentemente que os cristãos se acostumaram a ver uma mesa vazia, ou mesmo nenhuma mesa, na frente da igreja. Ironicamente, os cristãos que afirmam ser bíblicos são aqueles que ignoram o elemento mais consistente da adoração bíblica. Os cristãos nas igrejas litúrgicas se perguntam se esses ajuntamentos não-festivos, tão alegres e edificantes quanto possam ser, qualificam-se verdadeiramente como culto cristão. Eles são tão anômalos como um templo sem sacrifícios.
Hoje, provavelmente há mais igrejas protestantes celebrando a comunhão todas as semanas do que nunca. Esta fome e sede da carne e do sangue do Senhor é um dos desenvolvimentos mais importantes desde a Reforma. No entanto, mesmo cristãos que praticam a comunhão semanal, nem sempre compreendem quão importante é isto, porque não compreendem o caráter da Igreja ou o papel da Ceia na vida da Igreja.
Somos criaturas sociais e comunitárias: Não é bom que o homem esteja só. O pecado prejudica a vida social. A desobediência interrompeu a íntima harmonia entre Adão e Eva; o primeiro filho nascido assassinou seu irmão mais novo; Deus espalhou as nações e confundiu as línguas depois de Babel.
A história bíblica da salvação é sobre a restauração e glorificação da humanidade e da criação. Se Deus resgata a humanidade, ele deve reparar os relacionamentos e sociedades humanas. A salvação tem que assumir uma forma social, ou não é salvação para os seres sociais que somos.
A salvação final tem uma forma cívica: os novos céus e a nova terra são uma cidade, a nova Jerusalém. Também no presente, a salvação toma a forma comunal da Igreja. A Igreja não é um “instrumento” ou “meio” para alcançar a salvação individual. A Igreja é a forma atual de salvação na história. Claro, essa salvação é ambígua e parcial. A Jerusalém nupcial ainda não desceu do céu, e a Igreja muitas vezes atua como prostituta. Ainda assim, a Igreja é o que Deus diz que ela é: a nova humanidade reunida para Jesus, o Corpo do Filho encarnado do Pai unido pelo Espírito.
A salvação é visível na adoração da Igreja, que se reúne — ou deve se reunir — para comer e beber. “A Eucaristia faz a Igreja” — é um antigo axioma revivido no século passado. Paulo disse primeiro: “Nós somos um só corpo porque todos participamos do único pão”. A Igreja congregada está participando da forma comunal da salvação, e o ponto central da reunião da Igreja é a Mesa do Senhor. Ali, vemos o mundo como ele deve ser, o mundo como será: uma alegre comunidade de homens, mulheres e crianças que comungam com Deus ao comungar dos dons da criação.
Você quer ver a renovação do mundo? Procure por um grupo de cristãos partilhando pão e vinho, e você verá o início do retorno da humanidade à árvore da vida do Éden. Isto é o que torna a comunhão semanal tão importante. Onde os cristãos se reúnem para comer e beber, a salvação chegou à cidade.
Peter J. Leithart
Texto Original: At the Table
Tradução: Evandro Da Rosa
Revisão: Bruno Pasqualotto Cavalar

