
Por James B Jordan
Este é o primeiro de uma série de ensaios sobre “A Continuação da Reforma”.
Muitas igrejas diferentes descendem da Reforma Protestante original, e as mais conservadoras frequentemente insistem em afirmar que são, em grande parte, senão completamente, fiéis à Reforma, ou ao ramo do qual se desenvolveram. Mas será que isso é realmente verdade? Ou será que a acumulação de tradições, na realidade, afastou essas igrejas, especialmente nos Estados Unidos¹, dos propósitos dos reformadores originais? Esta breve série de ensaios explorará um pouco essa questão, com o objetivo de explicar nossa visão aqui na Trinity House: a visão de retornar às intenções dos reformadores, tal como existiam dentro de toda a herança católica da cristandade, e dar continuidade aos seus esforços.
A Reforma Protestante foi um movimento reformista dentro da cristandade católica ocidental, não uma revolta contra ela.
James B. Jordan
Embora existissem alguns movimentos na época da Reforma que deram continuidade a diversas manifestações revolucionárias medievais, e outros que ampliaram as noções medievais de comunidades pacifistas separadas e altamente disciplinadas, estes não faziam parte do próprio movimento protestante.
A palavra “protestante” vem do latim “pro”, que significa “diante de”, e “sto”, que significa “estar de pé”. Protestar é “estar diante de” alguém, seja para fazer uma declaração positiva ou uma crítica. O protestantismo foi tanto uma declaração contra várias corrupções da liturgia, da vida e da doutrina na Igreja Ocidental, quanto uma declaração em favor das compreensões bíblicas e patrísticas da Igreja e da cristandade.
A Reforma surgiu num contexto de vários séculos de luta entre o Papa e o Imperador, os Guelfos e os Gibelinos, os Welf e os Webeling. As pretensões políticas imperiais do Papado eram naturalmente ressentidas pelos Sacro Imperadores Romanos, bem como pela coroa inglesa. De um ponto de vista bíblico, cada lado, em diferentes momentos, teve aspectos positivos e negativos. O ponto crucial é que a Reforma não pode ser compreendida fora desse contexto.
Na época da Reforma, vários príncipes do norte da Europa estavam dispostos a apoiar Lutero, assim como Henrique VIII, na Inglaterra, desejava uma Igreja Anglicana independente do papado. Nesses contextos, falamos da Reforma como sendo primordialmente “magisterial”, supervisionada e, em grande medida, implementada pelos governantes desses reinos. Isso representou uma continuidade da mentalidade gibelina, embora reformada consideravelmente pela Bíblia.
Ao mesmo tempo, outras vertentes da Reforma não contaram com apoio significativo dos governantes. De fato, essas vertentes existiram num contexto de hostilidade por parte dos governantes. Referimo-nos a esse aspecto da Reforma como “católico”, pois estava mais em consonância com a tradição do pensamento guelfo. Assim foi a Reforma na Suíça, na Escócia e nos Países Baixos.
A distinção entre essas duas tendências sociais é real, mas na prática, tênue. Os reformadores suíços gostariam de ter tido o apoio do rei da França, mas não o obtiveram. Os reformadores na Inglaterra tiveram que lutar contra a coroa que os patrocinava.
No entanto, e aqui está o ponto crucial, nenhum dos lados tinha qualquer desejo de se revoltar contra a cristandade ocidental e suas tradições mais importantes. Ambos os lados da Reforma mantiveram o seguinte:
- A instituição Igreja é o centro da sociedade, o lugar de onde flui a energia transformadora para remodelar as outras esferas da vida humana.
- Portanto, a Igreja deve ser o centro de qualquer cidade, o centro da ordem, o baluarte contra o caos e a anarquia. De fato, a restauração e/ou preservação da ordem social é uma tarefa primordial da Igreja e de todos os cristãos.
- O ministro, além de conduzir o povo a Deus em adoração, é também um membro importante da sociedade, e se distingue por suas vestimentas como qualquer outro profissional. Ele atua como consultor dos magistrados locais.
- Jesus Cristo é o rei da sociedade e a Bíblia é a Sua lei. Quaisquer que sejam nossas compreensões de “lei natural” ou “direito comum das nações”, elas devem estar em conformidade com os ensinamentos da Bíblia.
- A Ceia do Senhor, juntamente com a Palavra, é central na adoração. O culto semanal deve incluir ambas. A Santa Ceia é uma comunicação milagrosa de Deus aos homens, não um mero meio de devoção. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, essa era a visão de todos os reformadores, de uma forma ou de outra, incluindo Zwingli.
- As orações da Liturgia devem, em grande medida, usar as mesmas palavras todas as semanas, para que as pessoas possam aprendê-las e levá-las consigo.
- O núcleo da Liturgia (o “ordinário”) deve ser o mesmo em todos os lugares, em qualquer grupo linguístico, para que haja unidade.
- A liturgia, levando-se em consideração as tradições locais, deve ser a mesma em toda a cristandade. Muitas das orações devem ser as mesmas onde quer que sejam oferecidas, embora em línguas diferentes. Essa tem sido a visão da Igreja Cristã desde os tempos mais remotos, pois a Igreja é católica.
- Deus reivindica os filhos dos cristãos. Eles são Dele. Devem ser batizados e tratados como cristãos genuínos, embora imaturos. Não são “víboras em fraldas da aliança” à espera de serem evangelizadas como se fossem pagãos.
- Os Salmos são fundamentais na adoração, e todos os 150 devem ser cantados constantemente, como a Igreja Católica sempre defendeu.
- A música histórica da Igreja deve ser preservada, embora modificada por ritmos de diversas línguas. Assim, tanto os corais luteranos quanto os salmos genebrinos foram amplamente baseados em melodias de canto gregoriano.
- O Espírito Santo pretende transformar todas as nações da Terra em teocracias, e Jesus não voltará para pôr fim à história até que isso aconteça. Nem todos os reformadores tinham tanta certeza disso quanto a maioria.
- A divisão da Bíblia em “Antigo Testamento” e “Novo Testamento” é meramente por conveniência, pois as Escrituras constituem uma única narrativa do início ao fim.
- Bispos são simplesmente pastores seniores de uma pequena área geográfica. Tais ministros presidentes são úteis e desejáveis, se você tiver a bênção de tê-los; pois pastores também precisam de pastores.
- Embora as igrejas papais sejam “falsas”, elas não o são no sentido de serem igrejas malignas e falsificadas que levam os homens à danação, mas sim no sentido de que distorcem a verdade, apesar de ainda serem igrejas. Portanto, pessoas batizadas nas igrejas papais não devem ser batizadas novamente, e os homens ordenados ao sacerdócio nas igrejas papais não devem ser reordenados se se converterem e se tornarem clérigos protestantes.
Esta lista de crenças da Reforma parecerá estranha para muitos cristãos protestantes americanos. Muita coisa mudou nas igrejas que remontam a Calvino, Knox e Lutero. Mas essas mudanças representam progresso ou retrocesso, ou talvez um pouco de ambos? Embora nós, da Trinity House, estejamos escolhendo a Reforma como ponto de partida para a discussão, não desejamos excluir nada do que veio antes ou depois. Afinal, talvez os reformadores tenham descartado o essencial em algumas áreas, e talvez tenham sido incompletos em outras. Nesta série inicial de ensaios, espero apresentar algumas áreas que serão abordadas pelo Instituto de Estudos Bíblicos, Litúrgicos e Culturais que é a Trinity House [agora, Theopolis].
¹N. do T.: Esse contexto também se aplica ao protestantismo brasileiro.

